Moradias traduzem histórias de famílias por meio do uso de objetos de valor sentimental 

 

Por Danilo Costa*

Cheiros, músicas, cores, lembranças de família e objetos de viagens. Durante nossas experiências, levamos na bagagem artigos e sensações especiais que fizeram parte de nossa história. Na arquitetura, para criar um aspecto de afeto e conforto em casa, o conceito de décor afetivo se torna cada vez mais comum, aliado ao melhor da tecnologia e das possibilidades infinitas disponíveis no mercado.

A arquiteta Isabella Nalon define o estilo decorativo como a relação com bens sentimentais adquiridos durante a vida e que se traduzem no décor afetivo dos ambientes.

 

“Inicialmente, podemos dizer que são peças que trazemos de gerações, como uma cristaleira da bisavó, ou algum objeto que compramos durante uma viagem marcante e queremos que faça parte do lar”, explica a profissional.

 

Décor afetivo | Sala ampla com estantes de livros ao fundo emoldurando a porta

Livros, coleções e peças afetivas marcam a área social do apartamento reformado por Isabella Nalon (Julia Herman/Divulgação)

 

“Acredito que uma decoração afetiva mexa com a psicologia e o humor de cada um. Seja ao trazer uma foto, um objeto com significado especial ou um móvel de família, ela evoca memórias e sentimentos relacionados à peça”, acrescenta a arquiteta Carina Korman, do escritório Korman Arquitetos. 

Telefone antigo de parede em madeira e metal

Neste apartamento projetado para um morador apaixonado por livros, a arquiteta Isabella transformou as publicações cheias de histórias na atração do living. Em uma das paredes, a profissional destacou o telefone, herança da família (Julia Herman, JP Image/Divulgação)

 

Parede em madeira decorada com objetos trazidos de viagens uma mesinha de madeira lateral antiga

No projeto de Isabella Nalon, objetos eternizam as viagens e contam histórias vividas pelo morador (Julia Herman/Divulgação)  

 

Mas, apesar de ser mais comum levarmos o conceito para objetos, a arquiteta Karina Korn destaca que traduzir a afetividade na decoração vai muito além disso e pode se concretizar em cheiros, cores e até mesmo sensações. “Muitas vezes, essas lembranças especiais não são algo concreto. Pode ser um sentimento que tivemos quando entramos em um espaço e queremos refletir em nossa casa, o clima de um lugar, a música que marcou um momento, o cheiro da casa de nossa avó. É algo muito mais sensorial do que objetivo”, diz Karina Korn. 

Segundo Carina e Ieda Korman, não existem muitas regras quando se fala de decoração afetiva. “O importante é escolher itens com significado e fazer, com eles, uma composição harmônica”, aponta Ieda. Seja com um mobiliário que passou de geração em geração, uma coleção especial do morador, fotografias e quadros – o importante é buscar a emoção de quem mora, criando uma atmosfera única e personalizada. 

 

Como transmitir para a casa o décor afetivo 

Sala de estar toda branca com parede de tijolinho, na parede duas maquinas de escrever antigas, emolduradas com duas molduras amarelas

Neste apartamento projetado por Carina e Ieda Korman, as máquinas de escrever do avó da moradora ganharam destaque ao serem emolduradas, conferindo uma decoração com muita memória e afetividade (JP Image/Divulgação)

 

O primeiro objetivo da decoração afetuosa é proporcionar identidade e conexão. Pode-se observar a importância desse elemento na compra de um imóvel novo ou quando a pessoa vive em um ambiente com décor que não foi tão bem planejado e que causa “estranheza” em um primeiro momento. 

Mas, como revelar, de forma harmônica, a sensação de lembranças tão boas para a decoração? O segredo é entender como os objetos ativam as sensações de aconchego e boas lembranças para, dessa forma, compor o ambiente da melhor forma possível. A arquiteta Karina Korn, por exemplo, fez questão de deixar na sala, ambiente de destaque do apartamento, um móvel que pertenceu a avó e está na família há algumas décadas.

 

“Essas peças ajudam a contar a história da decoração e nos trazem gostosas lembranças”, conta ela. 

 

Um cavalinho de balanço, antigo e em madeira, faz a vez de uma mesinha lateral para o sofá

O cavalinho que participou da infância da arquiteta Beatriz Ottaiano, da Doob Arquitetura, hoje é um dos destaques da sala de estar de seu apartamento (Evelyn Müller/Divulgação)

   

Já se a lembrança for uma peça decorativa que atravesse gerações e que pareça esteticamente antiga, uma ótima saída é combiná-la com móveis modernos que podem ser colocados em qualquer ambiente, desde o quarto até a garagem. A arquiteta Pati Cillo ainda explica que esse objeto pode ser o “start” da decoração e que a mistura entre antigo e moderno é sempre atual no segmento: “O sentimental é um elemento importante para a decoração porque é a história do morador. O segredo é saber aliar com outros objetos, pensar em diferentes modos de utilizá-la ou, se necessário, até repaginá-la sem distorcer suas características originais”, conta a arquiteta. 

Pati Cillo também ressalta a importância de procurar profissionais de arquitetura que trabalham explorando essa técnica e que podem ajudar a encontrar novas formas de utilizar a peça ou trazer sensações para dentro de casa. “Tudo começa com uma boa conversa com o cliente, quando falamos sobre essa lembrança, para compreender os anseios do morador. Assim, utilizamos nossas ferramentas e criatividade para concretizar na residência da melhor forma possível”, explica Pati. 

 

Carrinho antigo de chá faz a vez de barzinho neste apartamento

O projeto de Karina Korn resgata o carrinho de chá que pertenceu à avó (Eduardo Pozella/Divulgação)

 

Benefícios pessoais e pertencimento 

Decorar com emoções faz uma ligação direta com a questão de pertencimento no lar. Sentir-se parte de um lugar traz benefícios intangíveis para o morador. Para a arquiteta Beatriz Ottaiano, sócia da doob Arquitetura, as peças que trazem um valor afetivo merecem um lugar especial no ambiente. 

Em seu apartamento, em São Paulo, Beatriz resgatou o cavalinho que fazia parte de suas brincadeiras de criança e o transformou em um apoio importante no estar. “Antes disso, ele foi levemente restaurado e atualmente serve de apoio para objetos e revistas”, revela a arquiteta. 

Uma ótima forma de explorar a decoração afetiva está nas peças herdadas de parentes. Um baú, aparador ou até sofá pode ganhar um espaço de destaque, trazendo um pouco do DNA de quem mora ali. “Muitas vezes essas peças são desconsideradas, por terem sofrido desgastes com a passagem do tempo. Mas uma restauração ou um simples reparo pode trazer toda a funcionalidade necessária”, explica Ieda. Uma troca de estofado ou uma nova pintura é capaz de trazer outra vida para os mobiliários, preservando os traços originais da peça. 

 

Cadeira de balanço em tecido de tons azuis decoram a sala de estar

Na sala, a arquiteta Pati Cillo valorizou a decoração com um balanço de cordas que o morador tanto desejava (Luis Gomes/Divulgação)

Com estilo industrial, o apartamento quarentão foi inteiro reformado e se transformou num palco de sensações e resgate de memórias. A arquiteta Pati Cillo criou perto da janela da sala um cantinho de música, onde estão a vitrola e os discos de vinil (Luis Gomes/Divulgação)

  

Coleções e lembranças de viagem 

Coleções conferem um gostinho a mais em uma decoração afetiva. Para valorizá-las, um mobiliário planejado para a exposição das peças pode fazer toda a diferença – seja uma bela estante para o acervo de livros, discos de vinil ou CDs, seja uma prateleira para pequenos colecionáveis, miniaturas ou outros objetos. “Trazer o hobby do morador para a decoração é exaltar sua essência e personalidade. Não há nada que combine mais com a decoração afetiva do que isso”, pontua Isabella Nalon. Por fim, utilizar-se de suvenires ou peças adquiridas em viagens na decoração e organização da casa permite que os moradores sempre relembrem a experiência deliciosa que tiveram. É uma maneira de agregar uma nova função a um objeto, valorizando-o dentro do projeto. “Uma decoração afetiva deve ser um retrato do morador. Tudo é válido, desde que reflita, com harmonia, a essência de quem vive”, finaliza Ieda Korman.  

 

Danilo Costa integra a equipe editorial da Versatille

 

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