Um olhar no retrovisor

Para todos os efeitos, somente uma expressão serve para descrever o que vimos ao longo deste primeiro semestre se comparado às expectativas que prevaleciam anteriormente: sem precedentes. O choque registrado pela economia global em consequência da pandemia do COVID-19 desestabilizou sociedades, economias e mercados em uma escala e velocidade talvez nunca vista anteriormente (apesar de analogias a períodos passados abundarem).

Entramos em 2020 com expectativas positivas: a economia brasileira engataria mais um ano de recuperação e, na sequência da reforma da previdência, da projeção de mais reformas à frente e da taxa SELIC historicamente baixa, tudo apontava para um ano de bons proveitos para a economia.

No cenário externo, a assinatura do acordo comercial entre EUA e China, bem como a perspectiva de poucos ruídos neste front por conta da eleição americana no segundo semestre ensejavam algum grau de otimismo para economia global. Soma-se ainda que finalmente a Zona do Euro dava sinais de aumento do ritmo da atividade, ainda que fosse somente consequência da estabilização da atividade chinês.

A pandemia, no entanto, alterou absolutamente esta perspectiva. Em um movimento absolutamente inédito, enormes regiões geográficas foram paulatinamente forçadas a parar suas respectivas economias, gerando simultaneamente um choque de demanda e oferta que abalou a economia global.

Sem precedentes foram também as respostas de política econômica: as taxas de juros voltaram rapidamente para o patamar mínimo observado nas economias desenvolvidas, os balanços dos bancos centrais voltaram a se expandir de forma vertiginosa por conta de massivos programas de compra de ativos e os governos nacionais lançaram mão de programas de auxílio ao emprego e à renda para tentar suavizar o impacto na demanda agregada.

Obviamente, não há como suavizar a totalidade do movimento quando uma série de atividades anteriormente corriqueiras passam a ser simplesmente impossível por conta do distanciamento social (ex. ir ao cinema), mas a catástrofe econômica pode ter sido diminuída por conta dos governos.

Aqui no Brasil, somamos ao quadro da saúde ainda severos conflitos políticos que marcaram boa parte do começo do segundo trimestre. Resulta redundante mencioná-los, mas a resposta severa nos preços de alguns ativos que servem de proxy para o risco país (CDS, dólar, inclinação da curva longa, etc.) confirmam a posição delicada em que se encontra nosso país. Como catalizador do risco político, nossa situação fiscal ao começo da crise já era delicada: entramos neste período com uma média de dívida/PIB na casa dos 75%. Em consequência do auxílio público para a atividade, este número deve chegar próximo dos 95%. Consequência evidente: será mais caro refinanciar a dívida brasileira e precisaremos de um ajuste fiscal mais severo após a crise.

Por outro lado, a taxa SELIC permaneceu em queda, encontrando-se agora no patamar de 2.25%. O viés é que permaneça baixa por longo período de tempo, o que sem dúvidas ajudará na retomada econômica uma vez que a crise da saúde passar.

 

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