Novo espaço nos Campos Elíseos ocupa uma antiga fábrica de 1908 e reúne acervo, pesquisa e ateliês dedicados ao restauro do mobiliário moderno brasileiro
A Galeria Teo construiu, ao longo de quase 20 anos, um dos grandes acervos dedicados ao design moderno brasileiro. Criada pelos irmãos Lis e Teo Vilela Gomes, reúne mobiliário autoral e peças históricas que ajudam a acompanhar diferentes momentos da produção nacional.
Em agosto de 2026, parte dessa trajetória ganhou um novo endereço nos Campos Elíseos, no centro de São Paulo. Instalada em um edifício de 1908 onde funcionou a antiga Fábrica Cerello, a Galeria Teo Cleveland reúne acervo, pesquisa e ateliês de restauro em um mesmo espaço.
Entre tijolos aparentes, esquadrias, vidros originais e vestígios do antigo maquinário, 36 mil peças ajudam a contar diferentes capítulos do mobiliário brasileiro. Para entender como esse acervo foi formado e o que ainda pode revelar sobre a história do design nacional, o Blog Bossa Nova Sotheby’s conversou com Lis Vilela Gomes, sócia da Galeria Teo.
A Teo foi construída ao longo de quase 20 anos, peça por peça. Que história existe por trás dessa coleção e em que momento vocês perceberam que estavam construindo algo maior do que um acervo?
O acervo da Teo começou a ser construído há cerca de 20 anos, de forma bastante orgânica, peça por peça. No início dos anos 2000, o cenário do mercado era muito diferente do atual: havia maior facilidade para encontrar mobiliário moderno brasileiro, o que nos permitia resgatar peças excepcionais diretamente de seus contextos originais.
Com o passar dos anos, no entanto, esse mercado foi se transformando. À medida que o mobiliário moderno brasileiro se tornava mais conhecido, desejado e disputado também internacionalmente, percebemos que algumas peças tinham uma importância que ultrapassava seu valor comercial e que havia uma responsabilidade em preservá-las. Foi assim que começamos a formar nossa coleção particular.
Hoje, esse acervo privado tem um papel cultural ativo. Ele está presente nas exposições e pesquisas promovidas pela própria galeria e também permite que peças sejam emprestadas para mostras e instituições externas, ampliando sua circulação e o acesso a esse patrimônio.
Paralelamente, acreditamos que uma das maiores riquezas do acervo da Teo está justamente em sua diversidade. Para além dos grandes ícones, nosso acervo comercial reúne peças que revelam a qualidade da manufatura de época, matérias-primas, técnicas construtivas, beleza e desenho autoral. E existe também uma dimensão de continuidade nesse trabalho, que é a de restaurar e colocar novamente esse mobiliário em circulação, permitindo que ele habite novos lugares e continue a construir novas histórias.
A escolha de mostrar móveis com madeira mais deteriorada, ferrugem e outras marcas de uso é bastante interessante. O que vocês conseguem enxergar nessas imperfeições que não apareceria em uma peça restaurada?
Enxergamos as marcas do tempo não apenas como defeitos, mas como verdadeiras linhas de expressão do móvel. Essas marcas mostram que a peça foi vivida, usada e integrada à rotina de uma determinada época.
Apresentar as peças em seu estado original revela informações importantes, contribuindo para o seu estudo. Nesse estado, podemos analisar os encaixes, os vernizes e acabamentos de época, as ferragens, os estofamentos e o próprio comportamento das matérias-primas ao longo das décadas. Esses elementos ajudam na pesquisa e são também uma garantia de autenticidade para o mercado.
Por fim, é uma forma de valorizar a nossa equipe de restauro, permitindo que o público entenda melhor o trabalho realizado pelos artesãos em nossos ateliês. Na Teo, o objetivo do restauro não é transformar uma peça antiga em um móvel novo, mas realizar uma intervenção cuidadosa que recupere sua estrutura, sua funcionalidade e sua beleza sem apagar completamente as marcas de sua trajetória. Conhecer o ponto de partida torna esse processo muito mais evidente.
Vocês chamam o acervo de “em movimento”. O que exatamente está em movimento ali, as peças, o processo de restauro, a pesquisa sobre cada objeto ou a própria maneira de olhar para o design brasileiro?
O acervo, o restauro, a pesquisa e o nosso próprio olhar. É uma engrenagem viva em que todas essas vertentes se movem simultaneamente.
Quem visita o nosso espaço nos Campos Elíseos testemunha o fluxo real do mobiliário: a peça chega em seu estado original, passa pelo acervo aberto e pelos ateliês de restauro e, muitas vezes, segue para um novo destino. Essa circulação faz parte da natureza comercial da galeria, mas também permite que móveis produzidos décadas atrás sejam recuperados, voltem ao uso e continuem a construir novas histórias em outras casas e espaços. Há nisso também uma dimensão sustentável, ao prolongar a vida dessas peças sem apagar a memória que carregam.
LEIA MAIS: Perkins&Will: a filosofia do Living Design na arquitetura contemporânea
Ao mesmo tempo, existe um movimento constante de investigação. Novas aquisições despertam pesquisas que muitas vezes assumem uma dimensão quase arqueológica: as informações estão dispersas e precisam ser reconstruídas a partir de arquivos, revistas, catálogos, anúncios, fotografias e outros documentos de época. É esse cruzamento de fontes que nos ajuda a compreender melhor uma autoria, uma procedência ou um fabricante.
A nossa própria maneira de olhar para o design brasileiro também se modificou e ampliou nossos horizontes com o passar do tempo. Para além dos grandes nomes já consagrados, valorizamos designers menos conhecidos, peças de autoria ainda não identificada e a excelência da manufatura nacional da época. É um processo contínuo de reeducação do olhar e de redescoberta da nossa própria história cultural.
O galpão foi uma fábrica de vassouras, depois virou um lava-rápido e ficou abandonado. O que vocês encontraram na arquitetura do imóvel que fez vocês entenderem que aquele era o lugar certo para esse acervo?
A escolha do galpão nos Campos Elíseos foi especial: a alma do lugar conversou perfeitamente com a essência do nosso projeto. Há algum tempo procurávamos um espaço onde pudéssemos reunir o acervo e os ateliês de restauro, com mais espaço e melhor estrutura para o trabalho.
Quando encontramos o edifício, o que primeiro nos chamou a atenção foi sua arquitetura industrial e a verdade estrutural daquela construção de 1908. A escala do galpão atendia ao que precisávamos e, ao mesmo tempo, o prédio já carregava uma história que sentimos que deveria ser preservada.
Parte do antigo maquinário da Fábrica Cerello ainda permanecia no local e decidimos mantê-lo. Foi esse encontro entre uma necessidade muito concreta da Teo e um edifício carregado de memória que nos fez entender que aquele era o lugar certo.
O espaço preserva muitos elementos da antiga fábrica, como os tijolos, as esquadrias, os vidros e até as marcas do tempo. Como foi para vocês perceber que esse cenário, com toda a sua história, poderia conversar tão bem com os móveis e o design brasileiro? Essa relação já estava no projeto desde o começo?
Desde o início do projeto, o objetivo foi integrar a arquitetura e o acervo, preservando ao máximo aquilo que o edifício já carregava. Mas foi quando começamos a distribuir os móveis pelo espaço que essa relação se tornou ainda mais evidente.
A luz atravessando os vidros originais, os tijolos aparentes, as esquadrias e as superfícies marcadas pelo tempo criaram um contraste, mas percebemos também um encaixe muito natural. A arquitetura industrial do início do século XX e o mobiliário moderno, embora pertençam a momentos distintos, compartilham certa franqueza construtiva, em que materiais e estruturas não precisam ser escondidos.
Ver as texturas ásperas das paredes desgastadas abraçar as linhas elegantes, sinuosas e polidas do mobiliário moderno nos deu a certeza de que estávamos no caminho certo. O edifício deixou de ser apenas um pano de fundo e passou a participar da experiência do acervo, trazendo para o espaço outras camadas de história e memória.
O acervo atravessa aproximadamente cinco décadas, dos anos 1920 a 1968. Quando vocês olham para esse conjunto inteiro, que mudanças na maneira como o Brasil projetava, produzia e entendia o móvel ficam mais evidentes?
A Semana de Arte Moderna de 1922 é um marco importante para pensar esse processo de transformação. A partir daquele período, vemos ganhar força, em diferentes campos, uma busca por uma linguagem própria, que passa pelas artes, pela arquitetura e, posteriormente, também pelo mobiliário.
Somos um país tropical, com uma relação muito particular com a luz, a paisagem e uma enorme diversidade de matérias-primas e madeiras. Com a consolidação da arquitetura moderna brasileira, surgem espaços mais abertos, fluidos, transparentes e integrados à natureza. Esses novos projetos também passaram a pedir um mobiliário capaz de dialogar com essa maneira de viver e habitar.
Ao mesmo tempo, mudam as formas de produzir. O trabalho artesanal e o conhecimento dos materiais passam a conviver cada vez mais com novos processos construtivos e com uma produção em maior escala, ampliando as possibilidades do desenho.
Ao longo dessas décadas, o móvel brasileiro vai se tornando mais despojado, leve, explorando de maneira muito própria os materiais disponíveis e desenvolvendo uma linguagem cada vez mais autoral. É essa transformação que o acervo permite acompanhar: o mobiliário deixa de apenas preencher os interiores e passa a participar de forma mais integrada da arquitetura e da construção de um modo de viver moderno no Brasil.
Vocês criaram cinco ateliês de restauro dentro da própria galeria, com cerca de 40 artesãos. O que fez vocês quererem trazer esse cuidado para dentro do espaço e tornar o processo de restauro parte da experiência da própria galeria?
Acreditamos que a jornada de transformação de uma peça também faz parte de sua história. Trazer os ateliês para dentro do espaço permite revelar o trabalho minucioso que acontece através das mãos dos nossos artesãos e mostrar etapas que normalmente permanecem longe dos olhos do público.
Ao abrir esse processo à visitação, oferecemos também uma maior transparência. O cliente, o pesquisador ou o visitante consegue compreender a natureza de cada intervenção e perceber que o nosso restauro não procura apagar o tempo ou transformar uma peça antiga em algo novo, mas recuperar sua funcionalidade e sua beleza respeitando sua originalidade e sua trajetória.
Existe ainda uma dimensão que consideramos fundamental: a preservação e a valorização dos próprios ofícios envolvidos nesse trabalho. Marcenaria, palhinha, tapeçaria, metal e diferentes técnicas de acabamento dependem de conhecimentos transmitidos pela prática e pela experiência. Reunir esses profissionais e esses saberes no mesmo espaço cria uma troca cotidiana de conhecimento e dá visibilidade às pessoas que tornam possível a continuidade dessas peças.
Assim, o restauro deixa de ser apenas uma etapa anterior à apresentação do móvel e passa a fazer parte da própria experiência da galeria, como um processo contínuo de cuidado, conhecimento e preservação.
Depois de quase 20 anos trabalhando com esse patrimônio, o que vocês ainda estão descobrindo sobre o design moderno brasileiro ao organizar fisicamente essas 36 mil peças pela primeira vez?
A história do mobiliário moderno brasileiro vem sendo mapeada e organizada por um número cada vez maior de pesquisadores interessados em salvaguardar essa memória. Ainda assim, é uma história em construção. Há muito a ser descoberto sobre fabricantes, autores, processos produtivos, materiais e formas de circulação, além de peças e personagens que permaneceram pouco documentados ou à margem das narrativas mais conhecidas.
Ao reunir fisicamente um acervo dessa dimensão, isso se torna ainda mais evidente. As próprias peças passam a funcionar também como documentos: etiquetas, encaixes, madeiras, ferragens, medidas, acabamentos e diferenças entre exemplares podem revelar informações que muitas vezes não sobreviveram nos arquivos escritos. A proximidade entre elas permite perceber variações de um mesmo modelo, mudanças construtivas e relações entre fabricantes ou diferentes momentos de uma mesma produção.
Como parte desse movimento, na Galeria Teo Cleveland convidamos a historiadora Ethel Leon para construir uma linha do tempo dedicada a esse período. A proposta, no entanto, foge de um modelo cronológico rígido: desenvolvemos uma pesquisa aberta e dinâmica, justamente porque novas informações continuam surgindo.
A ideia é que essa cronologia também possa estimular a participação de pesquisadores, colecionadores e outros interessados, trazendo novos dados, documentos e pontos de vista. Mais do que apresentar uma história encerrada, queremos que ela permaneça em constante atualização e complementação, acompanhando o próprio avanço das pesquisas sobre o design brasileiro.
Existe alguma peça, conjunto ou história dentro desse acervo que mudou a maneira como vocês entendem um determinado designer ou período do design brasileiro?
Muitos designers que estiveram à frente das grandes manufaturas brasileiras contribuíram para transformar não apenas a linguagem do mobiliário, mas também as formas de produzi-lo. Um dos exemplos é Jorge Zalszupin, cuja trajetória e soluções construtivas ganham outra dimensão quando observamos um conjunto amplo de sua produção dentro do acervo.
Sempre nos chamou a atenção a maneira como Zalszupin absorveu referências do mobiliário escandinavo e as reinterpretou a partir dos materiais e das possibilidades produtivas brasileiras. O uso do compensado curvado revestido em jacarandá é um exemplo disso.
Ao mesmo tempo, o reaproveitamento de retalhos de jacarandá na criação de superfícies taqueadas revela uma inteligência produtiva que transformava as próprias limitações do processo em novas soluções de desenho.
Observar esse conjunto em escala ampliou nossa compreensão sobre Zalszupin e também sobre aquele momento do design brasileiro, em que forma, matéria e produção estavam profundamente relacionadas.
GALERIA TEO CLEVELAND
Alameda Cleveland, 508
Campos Elíseos – São Paulo, SP
Conheça a curadoria da Bossa Nova Sotheby’s International Realty de propriedades em que arquitetura, interiores e localização fazem parte da experiência.

