Exposição da Sotheby’s revisita os anos nova-iorquinos de Fernando Botero e mostra como volume, proporção e escala se tornaram elementos centrais da obra do artista colombiano
Muito antes de suas esculturas ocuparem praças e avenidas ao redor do mundo, Fernando Botero já investigava como volume e proporção poderiam mudar nossa percepção de uma figura.
É essa construção que a Sotheby’s revisita em Botero in New York, exposição realizada em parceria com a Botero Foundation no Breuer, em Nova York. Em cartaz até 7 de setembro, a mostra volta aos anos de 1960 a 1973, período decisivo para a formação da linguagem que tornaria o artista colombiano reconhecido internacionalmente.
Fernando Botero (1932–2023) foi um dos artistas latino-americanos mais reconhecidos do século XX. Nascido em Medellín, na Colômbia, construiu uma obra marcada por figuras de formas amplas, cores intensas e uma investigação constante sobre volume e proporção. Pintor e escultor, desenvolveu uma linguagem própria a partir do diálogo com a tradição da arte ocidental e levou suas formas monumentais para museus, galerias e espaços públicos de diferentes países.
É a primeira exposição dedicada a um único artista no edifício Breuer desde que a Sotheby’s passou a ocupar o endereço.
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O artista chegou a Nova York em 1960 com US$ 200 no bolso e uma trajetória que já incluía estudos na Real Academia de Bellas Artes de San Fernando, em Madri, exposições na Colômbia e em Washington e participações na Bienal de Veneza e na Bienal de São Paulo. A cidade seria decisiva para a consolidação de uma linguagem que o acompanharia pelo restante da carreira. É esse período, entre 1960 e 1973, que a Sotheby’s revisita na exposição Botero in New York, realizada em parceria com a Botero Foundation e em cartaz até 7 de setembro. A mostra ocupa o Breuer, edifício modernista na Madison Avenue projetado por Marcel Breuer e inaugurado em 1966, hoje sede da Sotheby’s em Nova York.
Nova York e a construção do volume
A cidade dos anos 1960 estava marcada pelo Expressionismo Abstrato e pela ascensão da Pop Art, mas Botero seguiu outra direção. Passava horas no Metropolitan Museum of Art observando pinturas que estudava como um pesquisador, voltando às mesmas obras para compreender suas soluções. Entre suas referências estavam Leonardo, Velázquez, El Greco, Rubens e, sobretudo, Paul Cézanne. A exposição da Sotheby’s mostra esse período como uma etapa de transformação, em que o artista passou da pincelada expressiva a uma pintura marcada pela planicidade, clareza e proporção geométrica, consolidando também a relação entre suas figuras e o espaço da composição.
O volume ganhou uma função central nessa investigação. Botero trabalhava proporções, contornos e relações entre figura e fundo para criar uma presença particular em suas pinturas. Durante os anos em Nova York, consolidou o estilo volumétrico e a compressão espacial que se tornariam marcas de sua produção.
Essa investigação também permite observar a obra de Botero a partir de conceitos próximos à arquitetura. Não se trata de afirmar uma influência direta do artista sobre arquitetos, mas de perceber como sua produção trabalha questões como proporção, escala, massa, profundidade e relação entre corpo e ambiente.
A passagem para a escultura levou essa pesquisa para a tridimensionalidade. Em 1973, quando se estabeleceu em Paris, Botero passou a se dedicar de forma mais consistente à escultura, desenvolvendo obras em bronze e mármore que ampliaram sua investigação sobre volume. Na década de 1990, suas esculturas monumentais já circulavam por espaços públicos de diferentes cidades.
Um exemplo recente do interesse do mercado por essa produção é Roman Soldier, bronze de 1985 oferecido pela Sotheby’s em maio de 2026. A escultura tem 1,88 metro de altura, 91,4 centímetros de largura e 54 centímetros de profundidade e pertence a uma edição de seis exemplares. A estimativa para o lote ficou entre US$ 350 mil e US$ 550 mil.
A escala é parte importante dessa leitura, porque quando uma forma concebida na superfície da tela ganha massa física, ela estabelece outra relação com quem a observa e com o lugar onde está instalada. O volume se transforma em uma experiência espacial.
O valor de Botero no mercado
A permanência dessa linguagem também aparece nos números da Sotheby’s. Segundo o índice Mei Moses da casa, entre 2003 e 2017, 82,2% das 73 obras de Botero revendidas em leilão registraram valorização, com retorno médio anual composto de 4,6%.
Em 2024, Horse, de Botero, foi oferecida na Sotheby’s com estimativa entre US$ 3 milhões e US$ 5 milhões. No mesmo ano, Florero e Jugando a las cartas, apresentadas na venda da coleção Salomón e Rosita Lerner, tiveram estimativas de US$ 1 milhão a US$ 1,5 milhão cada.
Em maio de 2026, a Sotheby’s voltou a colocar obras do artista em sua Contemporary Day Auction, entre elas The Bride, estimada entre US$ 800 mil e US$ 1,2 milhão, e Variaciones sobre Cézanne, entre US$ 450 mil e US$ 650 mil.
O mercado ajuda a dimensionar a permanência de Botero, mas Botero in New York volta a um momento anterior à consagração: os anos em que o artista definiu uma linguagem reconhecível até hoje.
Vista no Breuer, essa produção ganha ainda outra leitura. Pintura, escultura e arquitetura se encontram em torno das mesmas questões de escala, proporção e presença, justamente no período em que Botero começava a encontrar suas próprias respostas.
O que a obra de Botero tem em comum com a arquitetura?
A obra de Fernando Botero não é arquitetura, mas compartilha com ela questões fundamentais de proporção, escala, massa e espaço. Nas pinturas, essas relações aparecem entre figuras e composição. Nas esculturas, tornam-se tridimensionais e passam a interferir diretamente na percepção do corpo diante da obra.
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