O artista visual Luiz Martins, como resultado de contínuas pesquisas, conclui uma nova etapa com a criação da série Silêncio Negro. São inúmeras obras, entre pinturas, desenhos, e objetos, os quais abordam temas ligados às suas origens e a construção de sua linguagem.

Nascido na pequena cidade de Machacalis, interior de Minas Gerais, uma parte da família de Luiz Martins é afrodescendente, e outra pertencente à tribo indígena dos maxakali. Autodidata, teve contato com pinturas rupestres de sua região desde pequeno. Aos 17 anos, muda para São Paulo, onde passa a viver a dura realidade da periferia. Vestígios dessa trajetória podem ser visualizados no silêncio das formas, nas trocas figuradas deste contínuo processo de silenciamento, resgate de uma história ainda tão presente em seu cotidiano.

Luiz Martins_ Série Silêncio Negro – detalhe III (políptico), 2018, Acrílica sobre Papel

Em suas obras, recorre a elementos gráficos sobrepostos a páginas escritas em diversos meios – como folhas de dicionário, bíblias ou tabloides – cânones que carregam, em diferentes tempos, o discurso dominante e normativo do homem branco europeu. Nas palavras de Ian Duarte Lucas: “palavras que por tantas vezes se transformam em instrumentos de violência literal e simbólica”. Os materiais, texturas e superfícies que fazem parte do universo do artista carregam todo este simbolismo. Em Silêncio Negro, Luiz Martins trabalha suas formas não só sobre páginas de dicionários, acrescentando sua releitura a cadernos de viagem de Debret e Rugendas, típicos registros históricos que categorizavam e atribuíam características e funções às diferentes raças. Desta forma, faz referência a processos persistentes na estruturação da sociedade, e ainda uma crítica sutil a um mercado que até hoje premia e destaca estereótipos políticos e culturais.

Luiz Martins – Série Origens, 2011, Aço Galvanizado, madeira e Tinta Óleo, 120 x 148 cm

Silêncio Negro” surge em um período em que importantes instituições, em todo mundo, buscam reparar a histórica exclusão das minorias do circuito de arte. Segundo o artista, “esta série levanta questões para um aspecto tido como superado na história e na arte brasileira: o negro, o periférico, o índio, que aqui se apresenta de maneira a se colocar a relação do artista com a sociedade, o objeto arte com o espaço, e ainda, como a obra se manifesta e se torna representativa desse encontro, muitas vezes atravessado pela realidade social e política do Brasil. […] Há muitas maneiras de narrar à história daqueles milhões de homens e mulheres africanos que a brutalidade do escravismo arrebatou. No caso desta nova série, o conceito vem embarcado pelo silêncio enquanto matéria”.

 

Imagem de destaque: Luiz Martins_Série Cestaria Negra, 2018, Nanquim s Papel de Algodão, 55×75 cm

 

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