De Coco Chanel a Elsa Schiaparelli, o chapéu ajuda a moldar a história da moda e permanece como um dos últimos símbolos do tempo lento no universo do luxo.
Muito antes das bolsas-desejo e dos tênis de edição limitada dominarem o universo da moda, o chapéu ocupava posição central na construção da elegância. Presente em retratos da aristocracia europeia, nas primeiras coleções de alta-costura e nos figurinos mais emblemáticos do cinema, o acessório ajudou a definir códigos estéticos ao longo dos séculos. Em pleno 2026, enquanto as coleções são lançadas em ritmo cada vez mais acelerado, algumas das mais antigas casas do luxo continuam produzindo chapéus à mão, preservando técnicas artesanais transmitidas entre gerações.
Quando o chapéu moldou a história da moda
O chapéu está, inclusive, na origem de algumas das histórias mais importantes da moda. Antes de fundar uma das maisons mais influentes do século XX, Coco Chanel iniciou sua trajetória na chapelaria. Em 1910, no famoso número 21 da Rue Cambon, em Paris, Coco abriu a Chanel Modes, boutique dedicada à criação de chapéus que já antecipavam a elegância descomplicada que se tornaria sua assinatura. Décadas mais tarde, Christian Dior afirmaria que “without hats there is no civilization”, ou “sem chapéus não há civilização”, reforçando a importância do acessório na construção da silhueta feminina.
O chapéu também encontrou espaço no território da arte. Em 1937, Elsa Schiaparelli e Salvador Dalí criaram o icônico Shoe Hat, peça surrealista inspirada em um sapato invertido sobre a cabeça. O modelo atravessou décadas como um dos exemplos mais emblemáticos da aproximação entre moda e arte, demonstrando que a chapelaria sempre ocupou um lugar privilegiado na experimentação criativa.
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As casas que mantêm vivo o ofício
Embora a presença dos chapéus no cotidiano tenha diminuído ao longo do século XX, o ofício permaneceu vivo em algumas casas especializadas. Fundada em Londres em 1676, a Lock & Co. Hatters é considerada a chapelaria mais antiga do mundo ainda em funcionamento. Instalada até hoje na St. James’s Street, a casa mantém técnicas tradicionais de fabricação e produziu modelos usados por nomes como Winston Churchill, Oscar Wilde e membros da família real britânica. O clássico chapéu-coco, um dos modelos mais reconhecidos da história da moda masculina, nasceu ali em meados do século XIX.
Na Itália, a Borsalino preserva desde 1857 um processo artesanal transmitido entre gerações. Reconhecida mundialmente pelos chapéus de feltro, a marca continua produzindo peças que passam por dezenas de etapas manuais antes de chegar às vitrines. Já em Paris, a Maison Michel, integrante do ecossistema Chanel, mantém vivo um dos ofícios mais raros da moda contemporânea. Desde 1936, o ateliê preserva milhares de formas históricas de madeira utilizadas na criação dos chapéus e reúne artesãos especializados em técnicas cada vez mais raras. Desde 2021, a maison integra o 19M, espaço idealizado pela Chanel para abrigar e valorizar os métiers d’art franceses, reafirmando o compromisso da casa com a preservação de saberes artesanais.
O luxo medido pelo tempo
Eventos como Royal Ascot, Kentucky Derby e Wimbledon ajudam a preservar a tradição da chapelaria no calendário social internacional. Mesmo com a moda operando em ritmo cada vez mais acelerado, algumas das mais antigas casas de luxo continuam produzindo chapéus artesanalmente, reafirmando o valor do tempo e do saber artesanal.
Cada peça carrega tempo, conhecimento acumulado e um grau de exclusividade impossível de reproduzir em escala. Poucos acessórios exigem uma relação tão pessoal com a moda. Ao contrário de peças produzidas para o consumo rápido, o chapéu pressupõe escolha, intenção e estilo. Quando a moda parece cada vez mais uniforme, a chapelaria artesanal continua oferecendo algo raro, a individualidade.
Você sabia?
A Maison Michel preserva milhares de moldes históricos de madeira utilizados na produção artesanal de chapéus, alguns deles com mais de um século de existência.
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