O estilo de moradia nas cidades mudou ao longo das décadas. Um movimento natural para acompanhar uma sociedade em transformação.

Até meados do século passado, a maior parte da população vivia em casas e eram raros os prédios de apartamentos. Com a crescente falta de espaço nas regiões mais centrais, a partir da década de 50 as classes de alto padrão começaram a se mudar para apartamentos, principalmente nas grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo.

Para vencer a resistência dos primeiros condôminos, acostumados a viver em casas com espaços enormes, os apartamentos eram projetados com o pé-direito alto, cômodos grandes e dependências de empregados. “Eram como grandes casas empilhadas”, diz o arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura do Mackenzie Olair de Camillo. “Os arquitetos tiveram de elaborar bons projetos para as pessoas que deixaram as mansões e foram morar em prédios de altíssimo padrão”, diz Camillo, citando empreendimentos como o Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, construído em 1958.

O boom imobiliário vertical surgiu com força a partir dos anos 60, prosseguindo nas décadas seguintes. Ao longo do tempo, as plantas de apartamentos foram se adaptando aos hábitos da população e tamanho das famílias. Confira a seguir as características de cada época nos empreendimentos de alto padrão.

Décadas de 50 e 60

Apartamentos com ambientes amplos e pés-direitos altos. As janelas eram feitas sob medida, de acordo com o projeto. Muitas vezes iam do chão ao teto, para garantir farta iluminação e circulação de ar. Era pouca ou nenhuma a preocupação com áreas comuns, pois o principal objetivo era valorizar o espaço interno do apartamento, para vencer a resistência das pessoas acostumadas a morar em casas. Geralmente havia apenas uma suíte e uma ou, no máximo duas, vagas de garagem. A planta era retangular, com dependências de empregadas completas (quarto e banheiro) e entrada social e de serviço, herança das antigas casas. Esse estilo de apartamento foi muito comum em bairros como Higienópolis, um dos primeiros de São Paulo a serem verticalizados.

Década de 70

O pé-direito começou a ser reduzido para otimizar os custos da construção e os cômodos ficaram ligeiramente menores, mas ainda amplos. Como nas décadas anteriores, as varandas eram raras e os apartamentos geralmente tinham três quartos, incluindo uma suíte. As janelas diminuíram e as esquadrias de alumínio padronizadas conquistaram o mercado. Nos empreendimentos de alto padrão começa a surgir uma tímida preocupação com áreas comuns, como quadras esportivas e parquinhos. Grande parte dos prédios residenciais nas metrópoles brasileiras são dessa época.

Década de 80

Surgem os apartamentos com mais de uma suíte e quatro ou mais dormitórios. Outra novidade são as varandas, ainda pequenas em relação aos outros cômodos e, às vezes, também presentes nos quartos. Outro conceito que começa a ser difundido é o “closet” e as áreas comuns são melhoradas. As dimensões dos cômodos diminuíram, mas o conforto e as exigências do público, não.

Década de 90

Aparecem as primeiras varandas gourmet, que ganham força nas décadas seguintes. Há também o aumento do número de suítes e banheiros. Os quartos de empregadas começam a desaparecer por causa da mudança dos hábitos dos brasileiros, que raramente dispõem de funcionários que dormem no serviço.

Surgem os grandes condomínios com mais de uma torre, áreas comuns bem equipadas e há uma grande preocupação com a segurança, por causa da crescente violência urbana. Prédios seguros, com guarita e câmeras, atraem clientes. “Aliar moradia, lazer e segurança torna-se um diferencial”, explica o professor Camillo.

Década de 2000

Surgem as supervarandas gourmet, vendidas como um atrativo aos moradores. Porém, isso não foi apenas a maneira de aumentar o conforto dos moradores. Em algumas cidades, como São Paulo, esses espaços não contam como área construída, por serem abertas, assim como jardins. Menor cobranças de impostos, maior o lucro das incorporadoras. O problema começou a surgir com o fechamento das varandas com vidros, despertando a atenção das administrações municipais. As áreas comuns também ganham novos espaços, como pista de caminhada e para passeio com animais de estimação.

A partir de 2010

A diminuição do tamanho das famílias, o aumento no número de pessoas que moram sozinhas e a longevidade cada vez maior da população, reduziu o tamanho dos apartamentos de alto padrão, mas não a sofisticação. Cozinhas gourmet, espaços coletivos de lavanderia, coworking, salões de festa equipados para receber os amigos e muita tecnologia disponível nos imóveis (como wi-fi e fechaduras biométricas) fazem parte dos empreendimentos. No caso dos pequenos apartamentos, a boa localização é mais que fundamental. “Os apartamentos mantiveram o alto padrão, mas cresce o número de unidades mais individualizadas e com muitos serviços à disposição”, explica o professor Camillo, do Mackenzie.