É o ser humano que desperta a matéria, é o contato da mão maravilhosa, o contato dotado de todos os sonhos do tato imaginante que dá vida às qualidades que estão adormecidas nas coisas.

                                                                                                                                                                            Novalis

 

Uma visita ao ateliê de Coca, em São Paulo, já é uma experiência reveladora. Ele é todo de vidro, cercado por um enorme jardim tropical e, à medida que se entra, parece um laboratório multidisciplinar ou um aquário, onde arte, botânica, biologia marinha e tantas outras matérias estão presentes. Nas paredes obras terminadas ou a finalizar, nas mesas materiais para pesquisas e, em mapotecas organizadas, desenhos e aquarelas.

Mas a paixão de Coca é mesmo pela água, ela mergulha desde menina no Litoral Norte de São Paulo. Nos últimos dez anos, viaja com seu marido, por estradas do centro do Brasil e toda a América do Sul, como Guianas, Terra do Fogo, Galápagos. E, a mais recente, foi em julho de 2018, para o Tahiti, que não pertence à América do Sul. Ela registra tudo em seu diário de viagem, que geram desenhos em grafite sobre papel ou telas de grandes dimensões, além das fotos.

 

Coca Rodriguez, Cabeça e água viva, 2016, 1,00m x 0,67m sobreposição de fotos e desenho.

“…dormimos na beira do rio, (ou igarapé?) com chuva e lama em tudo!  No igarapé chamado Iguaçu, parei para ver o Boto Cor de rosa, ele é mais salmão, (não existe rosa por aqui, é invenção de sulino) ele é bom, brinca e olha muito para os de fora, dei peixes para ele, quando ele olha parece gente…agradei a sua cabeça”, escreve Coca Rodriguez.

Nesta série que ora a Bossa Nova Sotheby’s abriga, nunca exposta no Brasil, Coca adiciona técnicas diversas, fotos sobre as quais sobrepõe desenhos. Surgem paisagens e seres imaginários compostos por algas marinhas, pelos de animais e sementes que se misturam às bocas, aos olhos e às peles. Cérebros são corais ou bulbos de flores e, uma água viva se funde na imagem de uma cabeça feminina.

Coca Rodriguez, cabeça de lobo, 2016, 1,00m x 0,67m sobreposição de fotos e desenho.

Em seu livro “A Água e os Sonhos”, Gaston Bachelard, filósofo francês, escreve sobre a atitude de contemplar a natureza, sobre o homem que quer ver, que a curiosidade dinamiza a mente humana. Coca tem esta atitude, acolhe os elementos da Grande Mãe que lhe servem de matéria prima: seus olhos agem como seu espelho e seus ouvidos escutam seu imaginário, para reintroduzir no mundo “seus achados nas coisas escondidas”.

 

www.cocarofriguezcoelho.com.br

 

Foto de destaque: Coca Rodriguez, Boca e folha seca, 1,00 x 1,50, sobreposição de fotos e desenho.

 

Elisabeth Leone – Prof. Dra Comunicação e Semiótica
@elisabethleone