Artistas contemporâneos colecionam esboços e estudos de mestres do passado, e esse fascínio vai muito além do mundo da arte
- Desenhos de grandes mestres revelam o processo criativo por trás de obras icônicas da história da arte.
- Esboços, estudos e rascunhos funcionam como registros íntimos do pensamento do artista em ação.
- O interesse por desenhos raros cresce entre colecionadores e artistas contemporâneos.
- Muitas dessas obras têm valores mais acessíveis que pinturas, abrindo portas para novos colecionadores.
- Além do valor histórico, os desenhos também têm forte potencial estético e decorativo.
- Cuidar bem das obras garante sua preservação por séculos.
Os chamados Old Master drawings – esboços, estudos e até rabiscos feitos por artistas europeus do século XV ao início do século 20 – funcionam como verdadeiras janelas para o processo criativo de alguns dos nomes mais celebrados da história da arte. Na Sotheby’s, essa categoria abrange desde desenhos a tinta de Anthony van Dyck até estudos em carvão de mestres vitorianos e aquarelas de J.M.W. Turner.
“É como olhar por cima do ombro do artista enquanto ele pensa no que vai fazer”, explica Gregory Rubinstein, diretor sênior e chefe global do departamento de desenhos de antigos mestres da Sotheby’s. “Você vê o artista testar uma figura em uma posição, depois em outra. Dá para acompanhar todas as etapas do processo.”
Em 2012, Rubinstein participou da venda que ainda hoje detém o recorde mundial da categoria: o esboço preparatório “Cabeça de um Jovem Apóstolo”, de Rafael, vendido por £29,7 milhões em Londres. A obra foi criada no início do século XVI como estudo para “A Transfiguração”, o último grande trabalho do artista. Duas vendas recentes em Nova York ampliam o panorama desse tipo de colecionismo e revelam o interesse crescente por esse mercado.
Entre os grandes nomes do colecionismo de desenhos está Diane A. Nixon, cuja coleção, com mais de 200 obras de diferentes períodos e escolas, foi uma das mais respeitadas do século passado. Defensora do desenho como linguagem artística autônoma, ela também doou obras a instituições e apoiou departamentos especializados ao redor do mundo.
Os desenhos mais disputados em leilões costumam ser estudos preparatórios para pinturas famosas, mas isso não diminui seu valor artístico. Pelo contrário: são obras completas em si mesmas e analisadas com o mesmo rigor que qualquer outra peça. Além disso, muitos desenhos produzidos ao longo da história se perderam, o que torna os exemplares sobreviventes ainda mais raros e desejados.
Hoje, práticas históricas e contemporâneas se cruzam cada vez mais. Artistas atuais olham para mestres antigos em busca de referência e inspiração – e alguns, inclusive, se tornam colecionadores desses desenhos. Outro atrativo é o valor de entrada: em muitos casos, é possível adquirir obras de grandes nomes da história da arte por valores significativamente mais acessíveis do que pinturas em tela.
Para quem quer começar, Rubinstein recomenda visitar exposições, ver lotes de leilão de perto e conversar com especialistas. O mais importante é entender o que, pessoalmente, desperta interesse e emoção, equilibrando gosto estético e orçamento.
Entre os destaques recentes está um estudo de Rembrandt de um jovem leão em repouso, uma das raríssimas representações do animal feitas pelo artista e considerada uma das obras mais importantes dele a aparecer no mercado em décadas. Também figuram desenhos de Canaletto, Watteau e Tiepolo, com proveniências históricas de grande relevância.
Apesar da delicadeza do papel e do pergaminho, muitos desses desenhos sobreviveram por séculos e continuarão existindo se forem bem cuidados, longe de luz intensa e condições extremas. Além do valor histórico, eles também funcionam muito bem como elementos decorativos, criando paredes que contam histórias e conectam passado e presente.
Por fim, há algo de profundamente humano nesse tipo de obra: a sensação de proximidade com o artista, atravessando séculos. Um pequeno esboço de paisagem de Fra Bartolomeo, feito há mais de 500 anos, carrega justamente essa força – um gesto simples que, ainda hoje, nos permite vislumbrar o instante em que alguém parou para observar o mundo e transformá-lo em desenho.

