Elisa Campiotti Bergami nasceu em Ibitinga/SP, em agosto de 1913, onde sua família se fixou como imigrantes italianos. Zica se mudou para São Paulo aos 8 meses de idade e morou primeiro na Barra Funda, depois no Bom Retiro. Era uma outra São Paulo, a dos lampiões de gás, das cheias do Tietê, então um dos lugares de lazer e esportes da Capital. “Ah, era uma beleza. Todo mundo se conhecia, todos os vizinhos eram amigos. De noite eles botavam a cadeira na calçada (…). E nós ficávamos brincando na rua de pular corda, brincar de roda, ‘passa-passa três vezes’. Os meninos brincavam de bolinha de gude, roda-peão e cantávamos aquelas músicas (…). E assim ia, a gente brincava até nove, dez horas da noite. Tinha o bonde aberto, que passava de quarenta em quarenta minutos sacudindo a campainha dele. Não tinha movimento nenhum. E a gente se divertia assim, os pais conversavam na calçada e a criançada brincando. Era uma maravilha, era uma beleza”, comenta a artista em entrevista para o Museu de Pessoa (2005).

Zica Bergami – Soltando baloes – nanquim s papel – 34×45 – 1998

Autora de grandes sucessos musicais a partir da década de 1950, como “Lampião de Gás” – canção que foi símbolo da cidade de São Paulo de antigamente, gravada por Inezita Barroso, em 1958 -, “O Batateiro”, “Chuvarada”, entre outros, Zica Bergami foi uma artista multifacetada que, além de composições musicais, também escreveu livros de poesia. Começou a desenhar após a morte de seu marido, e seus desenhos conquistaram não apenas o público brasileiro, mas foram expostos também em Paris, Portugal, Tel Aviv, Nápoles e na Holanda. Como descrito no Catálogo POP BRASIL: A arte popular e o popular na arte (CCBB – Gama, 2002): “Há muito tempo que ela faz uma boa figura e apresenta excelentes trabalhos nos salões e mostras de arte, revelando sua inconfundível maneira de desenhar com a tinta nanquim. Ela tinha muitas histórias para contar, dos bons tempos no interior, de um passado fulgurante na capital dos paulistas. Em seus desenhos fica patente o olhar cândido para as situações humanas, com um resultado que atinge a universalidade através de simples traços negros sobre a alvura do papel”.

Zica Bergami – Carnaval – nanquim s papel – 30×40 – 1999

A mostra inédita na Galeria Jacques Ardies, composta por 50 desenhos em nanquim sobre papel, apresenta trabalhos raros coloridos e em preto e branco, os quais destacam uma produção da artista datada entre 1987 e 2009, sendo a maior parte do final do século 20, o público paulistano pode ter acesso a esta verdadeira artista naïf, que se dedicou à temática popular, em paisagens não apenas rurais, mas também urbanas como parques, circos, apresentações, festas e cenas do cotidiano. Nos dizeres de Jacques Ardies: “Acredito que está na hora de voltarmos a falar em Zica Bergami. Uma figura interessante, muito delicada – infelizmente não a conheci, é uma pena. Uma grande dama de talento especial, inédito, que nunca frequentou aulas de arte. Espontânea e cheia de poesia, emoção, com uma produção que reflete a alma de um artista, interpretada de maneira muito pessoal”.

 

Zica Bergami – Sans titre – 1973

 

Foto de destaque: Zica Bergami – Descanso da tropa – nanquim s papel – 35×46 – 1998

 

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Curadoria de conteúdo: Silvia Balady / silvia@balady.com.br / @ssbalady