A barista Estela Cotes lembra do aroma doce que se espalhou em sua cafeteria quando abriu um pacote de café: “um cheiro delicioso, parecido com geleia de morango, invadiu o salão e chegou até a porta de entrada, lá na frente”, diz Estela, especialista em cafés especiais e proprietária do Barista Coffe Bar, em Curitiba (PR).

O café em questão é o Laurina Maceração Carbônica, considerado atualmente o café mais raro e caro do Brasil. Produzido de forma artesanal na Fazenda da Terra, em Minas Gerais, as duas únicas sacas de 60 kg colocadas no mercado foram arrematadas em leilões no início deste ano por R$ 26 mil cada. Os compradores eram da Rússia e da Espanha.

O Laurina é uma variedade muito rara de café. Uma variação da espécie Coffee Arábica, com baixo teor de cafeína, o que resulta em uma bebida de alta qualidade e muito saborosa. Após a colheita, os grãos passam por um processo de fermentação por maceração carbônica. Um método semelhante ao feito no vinho que garante notas frutadas e bons índices de acidez. “Foi o melhor café que tomei na minha vida”, afirma Estela.

 

 

O Laurina integra uma seleta lista dos mais raros e exóticos cafés do planeta. O primeiro colocado é o Kopi Luwak, produzido na Indonésia e considerado o mais caro do mundo. O quilo pode custar quase três mil dólares no mercado americano. Ele é fabricado a partir das fezes da civeta, um mamífero que, ao engolir o grão, libera ácidos e enzimas sobre o fruto em um processo de fermentação natural.

Os grãos são recolhidos e processados, resultando em uma bebida com notas de frutas vermelhas e baixíssima acidez. Nos últimos anos, porém, o Kopi Luwak tem sido alvo de críticas por denúncias de maus tratos contra as civetas, que teriam sido presas em cativeiro para aumentar a produtividade.

Na Tailândia, o Black Ivory Coffee é uma variedade em que o café é engolido por elefantes. No estômago o fruto também passa por um processo de fermentação natural, sendo expelido nas fezes. O quilo custa cerca de US$ 1.200, em média. Já em Taiwan, o Monkey Coffee passa pela boca de macacos, que comem o fruto e cospem os grãos, que são colhidos, lavados e secos naturalmente ao sol antes da torra. O quilo do Monkey no varejo custa US$ 700, em média.

A lista dos cafés mais raros e exóticos conta com o brasileiro Jacu Bird Coffee, do Espírito Santo, cujo quilo no exterior custa, em média, US$ 1.100. Aqui, a lata de 250 gramas é vendida no varejo por cerca de R$ 200. A produção do café brasileiro é parecida com a do Kopi Luwak. Certificada pelo Ibama, a iguaria é retirada das fezes do Jacu, que voa livremente pelas florestas na região de Pedra Azul. “O pássaro seleciona os melhores frutos para comer”, diz o empresário Henrique Sloper, produtor do Jacu Bird. Além disso, diz Sloper, o cultivo da planta é 100% orgânico e todo o processo de seleção dos grãos é manual.

E o qual a expectativa de quem toma cafés tão raros, exóticos e caros? “Acredito que esses cafés são procurados por pessoas que buscam uma experiência sensorial, mas também uma história diferente. Além do sabor diferenciado esses cafés trazem uma história que, invariavelmente, é incomum”, explica a barista e instrutora da Academia do Café, Júlia Fortini Souza.

Segundo especialistas, os cafés especiais, também chamados de gourmet, estão conquistando um mercado cada vez maior, dentro e fora do Brasil. E não apenas os tipos mais raros, mas também os de qualidade e índice de pureza superiores às marcas comuns encontradas no supermercado.

“É um segmento que cresce mais de 10% ao ano no mundo”, diz Sloper, que também é integrante da Brazilian Specialty Coffee (BSCA), que reúne os principais produtores de café do Brasil. “Quando a pessoa toma um café especial, não volta a tomar o café comum. A diferença é muito grande”, completa Estela Cotes.