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Entrevista: Tendências de arquitetura e interiores rumo a 2026

Joia Bergamo fala sobre luxo, sustentabilidade e a integração entre indoor e outdoor

Com a chegada do fim de ano, as casas se tornam palco de celebrações, encontros e momentos de convivência que pedem uma decoração acolhedora e soluções que unam beleza, funcionalidade e bem-estar.

Entre mesas bem postas, iluminação planejada e espaços preparados para receber a família e amigos, a atmosfera festiva reforça o papel da arquitetura e do design de interiores como parte essencial da experiência de viver cada detalhe.

É nesse contexto que conversamos com a arquiteta e designer Joia Bergamo, que há mais de três décadas assina projetos no Brasil e no exterior. À frente de um escritório que conduz simultaneamente dezenas de trabalhos, entre residenciais, corporativos e espaços icônicos, como o primeiro prédio Rolling Stone do mundo e mostras como a CASACOR, Joia compartilha sua visão sobre o futuro do morar. 

Em entrevista exclusiva para a Bossa Nova Sotheby´s, ela fala sobre tendências para 2026, o papel dos espaços externos, a convergência entre arte, design e tecnologia e a identidade do luxo brasileiro no cenário global.

BNSIR: Ao pensar em tendências para 2026, você acredita que o luxo continuará a ser traduzido por sofisticação estética ou ele passa cada vez mais por funcionalidade, tecnologia e sustentabilidade?

Ao pensar nas tendências para 2026, acredito que o conceito de luxo evoluirá para uma abordagem mais integrada, onde a sofisticação estética integra com funcionalidade, tecnologia e sustentabilidade. 

O luxo já não é apenas traduzido por acabamentos abundantes e design glamouroso; hoje, ele se alinha cada vez mais às necessidades dos usuários e ao respeito pelo meio ambiente. Expectativas de consumidores e profissionais do setor estão mudando, priorizando espaços que não apenas encantem visualmente, mas que também proporcionem conforto, praticidade e eficiência.

Além disso, o verdadeiro luxo é ser exclusivo e ter suas necessidades e sonhos realizados. Isso significa que cada projeto deve ser personalizado e refletir a identidade única de quem o habita. A integração de tecnologias inteligentes em residências, que otimizam o uso de energia e recursos, junto com o uso de materiais sustentáveis e de origem responsável, se tornará uma parte essencial da definição de luxo.

Portanto, em 2026, acredito que o verdadeiro luxo será aquele que une beleza à funcionalidade, tecnologia e um compromisso sólido com a sustentabilidade, criando ambientes que não apenas impressionam, mas que também cuidam do nosso planeta e atendem aos desejos e à individualidade de cada cliente.

BNSIR: O seu escritório conduz simultaneamente dezenas de projetos, entre residenciais e corporativos. Como manter uma identidade autoral em meio a tanta diversidade e, ao mesmo tempo, traduzir a personalidade de cada cliente?

Manter uma identidade autoral enquanto conduzimos vários projetos diferentes, tanto residenciais quanto corporativos, é um desafio que encaro com muito entusiasmo! Para mim, o segredo está em três pilares: pesquisa, escuta ativa e personalização.

Primeiramente, fazer uma boa pesquisa é essencial. Quando começamos um novo projeto, sempre dedicamos um tempo para entender não só as tendências do momento, mas também o que o cliente deseja. Cada cliente tem seu próprio estilo e história, e isso dá uma base única para cada projeto.

Saber ouvir as necessidades dos clientes é outra parte importante do processo. Cada cliente tem uma visão, um estilo de vida e uma história que precisa ser contada. Durante as reuniões, busco entender o que eles realmente querem e como se sentem em relação ao ambiente. Isso nos ajuda a criar um diálogo que conecta nossa estética com a personalidade deles.

A personalização é o que realmente traz tudo à vida. Cada projeto é como uma tela em branco, onde podemos aplicar nossas ideias, mas sempre incorporando o que é especial para o cliente. Desde as escolhas de materiais até as cores e texturas, tudo é pensado para refletir a identidade de quem vai usar aquele ambiente.

No fim das contas, minha abordagem é mergulhar na história e nas individualidades de cada um, mantendo a nossa essência ao projetar. Essa combinação nos permite criar espaços que são únicos e verdadeiramente representativos do que cada um deseja.

BNSIR: Você já assinou projetos icônicos em diferentes universos, desde prédios a mostras como CASACOR e até espaços ligados à moda, como a SPFW. De que forma essas experiências fora da arquitetura residencial influenciam sua visão de interiores e de ambientações indoor/outdoor?

Ter a oportunidade de assinar projetos icônicos em diferentes áreas, desde prédios até exposições como a CASACOR e eventos de moda como a SPFW, realmente ampliou minha visão sobre design de interiores e ambientações. Essas experiências fora da arquitetura residencial trazem uma perspectiva rica e diversificada que eu incorporo em cada projeto.

Uma das principais influências é a abordagem criativa e experimental que esses ambientes exigem. Ao trabalhar em mostras e eventos, aprendi a pensar fora da caixa e a valorizar a combinação de elementos estéticos com a função. Essas experiências me ensinaram a importância de criar ambientes que não apenas impressionam visualmente, mas que também contam uma história e proporcionam uma experiência memorável.

Além disso, a interação entre os espaços internos e externos se torna muito mais relevante quando estou envolvida em projetos como esses. Percebi que a conexão com a natureza e o aproveitamento da luz natural podem transformar um lugar, ampliando a sensação de espaço e conforto. Em espaços de moda, por exemplo, a fluidez entre o indoor e outdoor muitas vezes é essencial para criar atmosferas envolventes que se adaptam a diferentes eventos e públicos.

Essas experiências também me fazem ficar mais atenta às tendências e ao comportamento humano em relação ao espaço. Observar como as pessoas interagem em ambientes diversos me ajuda a entender melhor como projetar espaços que favorecem a convivência, a funcionalidade e, claro, a estética.

Em resumo, trabalhar em diferentes universos me proporcionou uma visão mais ampla e inovadora, permitindo que eu misture ideias e conceitos em projetos residenciais, criando ambientes que são não apenas bonitos, mas também dinâmicos e cheios de vida. Cada experiência contribui para moldar minha abordagem, resultando em projetos que refletem uma combinação única de criatividade e funcionalidade.

BNSIR: Em um cenário de mudanças climáticas e novas formas de habitar, como você enxerga a evolução dos espaços externos (jardins, varandas, rooftops) como extensão natural da vida contemporânea?

Em um cenário de mudanças climáticas e novas formas de habitar, vejo a evolução dos espaços externos, como jardins, varandas e rooftops, como uma extensão essencial da vida contemporânea. Esses ambientes não são apenas áreas funcionais; eles se tornaram verdadeiros refúgios que promovem bem-estar, conexão com a natureza e convivência social.

Com a crescente urbanização e a necessidade de integrar natureza em nossos dias, espaços ao ar livre passam a desempenhar um papel vital na saúde mental e física. Jardins, por exemplo, oferecem não só um ambiente relaxante, mas também oportunidades para cultivo de alimentos, promovendo a sustentabilidade e a autoconsciência sobre o que consumimos. Ao incorporar hortas urbanas e jardins verticais, estamos não só embelezando o espaço, mas também contribuindo para um estilo de vida mais sustentável e consciente.

As varandas e rooftops, por sua vez, se transformam em extensões de suas casas, oferecendo um espaço para descontração e socialização. Imagine almoços em família, momentos com amigos ou até mesmo trabalhar ao ar livre, tudo isso enquanto se desfruta da luz natural e do ar fresco. Esses espaços podem ser projetados para serem multifuncionais, com áreas para descanso, refeições e até pequenos eventos, tornando-se verdadeiros “jardins de cidade” que ajudam a renovar nosso espírito.

Além disso, à medida que nos tornamos mais conscientes das alterações climáticas, a arquitetura tende a se adaptar, priorizando materiais sustentáveis e soluções de design que maximizam a eficiência energética. Telhados verdes e espaços externos cobertos com plantas não apenas ajudam a regular a temperatura dos edifícios, mas também atuam como habitats para a fauna urbana.

Com tudo isso em mente, acredito que a valorização dos espaços externos já é uma tendência crescente e imprescindível. Ao projetá-los como extensões naturais de nossas vidas, não só enriquecemos nosso cotidiano, mas também contribuímos para um ambiente urbano mais saudável e sustentável. Em resumo, jardins, varandas e rooftops não são apenas acessórios; são partes fundamentais de um novo estilo de vida que abraça a natureza e promove a harmonia entre o ser humano e o ambiente ao seu redor.

BNSIR: Muitos apontam que os próximos anos trarão uma integração ainda maior entre design, arte e tecnologia. Como você imagina essa convergência aplicada ao alto padrão e quais limites ainda precisam ser rompidos?

Vejo essa convergência como uma oportunidade incrível para elevar o conceito de alto padrão a um novo patamar. Essa sinergia não apenas enriquecerá a estética dos espaços, mas também transformará a forma como interagimos com eles, trazendo um novo nível de personalização e funcionalidade.

No segmento de alto padrão, a aplicação dessa integração pode ser vista em várias frentes. Por exemplo, materiais inovadores, como superfícies reativas e multifuncionais podem criar ambientes dinâmicos que se adaptam às necessidades e desejos dos usuários. As instalações de arte interativas também podem ser incorporadas aos projetos, permitindo que os moradores vivenciem a arte de forma envolvente e pessoal.

Além disso, a tecnologia pode facilitar uma experiência ainda mais personalizada. Imagine sistemas de automação que ajustam automaticamente a iluminação, temperatura e som, criando o ambiente perfeito em diferentes momentos do dia. Isso não apenas aprimora o conforto, mas também torna a vida cotidiana mais prática e eficiente. 

Entretanto, ainda existem limites a serem superados. Um deles é a necessidade de equilibrar a tecnologia com a experiência humana. A integração de dispositivos e sistemas inteligentes não pode comprometer a sensação de aconchego e a conexão emocional que um lar deve proporcionar. Outro desafio é a acessibilidade; conforme tecnologias inovadoras se tornam padrão em projetos de alto nível, é essencial garantir que elas também sejam acessíveis e práticas para todos.

Além disso, enquanto a tecnologia avança, é fundamental que o design continue a contar histórias e a refletir a cultura e a identidade das pessoas. É nesse ponto que a arte entra: devemos garantir que a estética não seja apenas uma questão de inovação, mas que também tenha significado e valor emocional.

Portanto, imagino um futuro em que o design de alto padrão esteja em perfeita harmonia com a arte e a tecnologia, criando experiências únicas e personalizadas, mas que ainda respeitem a essência do ser humano e o nosso vínculo com os espaços que habitamos. Romper esses limites exigirá uma colaboração interdisciplinar contínua entre designers, artistas e tecnólogos, para que possamos moldar um futuro que não apenas utilize o que há de mais avançado, mas que também inspire e conecte as pessoas de forma significativa.

BNSIR: Seu trabalho já atravessou fronteiras e conquistou reconhecimento internacional. O que diferencia a arquitetura e o design brasileiros no mercado global e como isso se reflete no conceito de luxo para 2026?

O que diferencia a arquitetura e o design brasileiros no cenário global é a nossa rica mistura de cultura, natureza e criatividade. A beleza das cores vibrantes, formas orgânicas e a conexão com o ambiente são marcas registradas que fazem nossos projetos se destacarem.

Além disso, estamos cada vez mais focados na sustentabilidade, o que vai totalmente ao encontro do que o mundo demanda hoje. Em 2026, o conceito de luxo se transformará: não será só sobre beleza e sofisticação, mas também sobre criar experiências autênticas que fazem as pessoas se sentirem bem. 

Os clientes buscarão ambientes que refletem suas identidades promovendo aconchego. E é exatamente isso que a arquitetura brasileira oferece! Estamos prontos para continuar a inspirar o mercado global, mostrando que verdadeiro luxo é também ser responsável e conectado com a natureza sem abrir mão do conforto. 

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