Para muitos autores, não há diferença entre poesia e pintura, pois o processo imaginativo tanto parte da palavra quanto da expressão plástica. Ismael Nery (1900-1934) foi pintor e poeta, o que condiz muito bem com o dito de um poeta lírico grego, Simônides de Cós: “a pintura é uma poesia muda e a poesia uma pintura falante”.

Ismael Nery, Nus no Rochedo, s.d., aquarela s/papel, 18x32cm. Foto: Romulo Fialdini.

Ismael Nery nasceu em Belém do Pará, em 1900, e com nove anos foi para o Rio de Janeiro. Aos dezessete, por ser muito hábil no desenho, entra na Escola de Belas Artes. De família abastada, viajou para Europa algumas vezes e entrou em contato com as vanguardas europeias e com a tradição. Em 1922, ele se casou com a jovem Adalgisa Nery (1905-1980), futura escritora. Sua casa era frequentada por intelectuais, principalmente poetas, como seu melhor amigo e divulgador de seu legado, Murilo Mendes.

Nery foi sempre “ismaelíssimo”, escreveu Murilo. Distanciou-se da Semana de 22, em São Paulo, e no Rio de Janeiro viu-se isolado. O pintor/poeta rema contra a maré, pois enquanto a maioria de nossos artistas voltavam-se para uma linguagem nacionalista e ateísta, Ismael olhava para seu “eu” e a possibilidade de vários “eus”, para as fusões do feminino/masculino míticos, figuras andróginas, ele reflete questões existenciais, mas o tema é o ser humano.

Nos anos de 1920, sua obra incorpora algo do expressionismo e, principalmente, elementos do cubismo inicial de Picasso e Braque.

Ismael Nery, Autorretrato com Adalgisa, s.d., óleo s/cartão, 16x13cm. Foto: Jaime Acioli.

Em 1927, retornou a Paris com sua esposa e filho Ivan, ocasião que fez amizade com o pintor Marc Chagall e conheceu Andre Breton, autor do Manifesto Surrealista, de 1924. Nery foi um dos destaques do Salão de 1931, no Rio de Janeiro, que marcou a segunda fase do Modernismo Brasileiro. Porém, nesse mesmo ano, descobriu que sofria de tuberculose e, a partir de então, sua poesia se exaspera e sua pintura explode em imagens viscerais em estética surrealista.

Ismael Nery, Composição surrealista, c.1928. Guache s/papel, 20x27cm. Foto: Jaime Acioli.

Morreu aos 33 anos sem o merecido reconhecimento. Sua primeira retrospectiva foi em 1966, 32 anos após sua morte. Em 1967, participa da X Bienal de São Paulo e só nos anos de 1970, sua obra alcança preços excepcionais no mercado de arte e livros e exposições lhe são dedicados. A obra de Ismael Nery é ímpar na história da arte brasileira e vos convido então a ver as imagens desse último trecho de uma de suas poesias e a ouvir o que falam as duzentas imagens da exposição Ismael Nery: feminino e masculino.

Eu

Eu sou o profeta anônimo.

Eu sou os olhos dos cegos.

Eu sou o ouvido dos surdos.

Eu sou a língua dos mudos.

Eu sou o profeta desconhecido, cego, surdo e mudo

Quase como todo o mundo. (…)

1933 – Ismael Nery

 

Serviço:   Ismael Nery: feminino e masculino

Visitação: 09 de maio a 19 de agosto de 2018
Local: Museu de Arte Moderna de São Paulo
Endereço: Parque Ibirapuera
Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº. Acesso próximo, pelo portões 2 e 3
Horários: Terça a domingo, das 10h às 17h30 (com permanência até às 18h)
Tel: (11) 5085-1300
Ingresso: R$ 7,00 – Gratuito aos sábados.
Agendamento gratuito de grupo: 5085-1313 | educativo@mam.org.br

 

Elisabeth Leone – Prof. Dra Comunicação e Semiótica
@elisabethleone

 

Foto de destaque: Ismael Nery, Como meu amigo Chagall, s.d., aquarela, 26x38cm. Foto: Romulo Fialdini