Por que só agora? Esta é a pergunta que todos fazem no caso desta pintora sueca que surge há pouquíssimo tempo no cenário artístico, como precursora da arte abstrata. Mas a resposta envolve a compreensão de sua enorme pesquisa espiritual, filosófica e científica.

Hilma af Klint (1862-1944) passa por uma profunda transformação em seu trabalho, aceita ser “mediadora entre dois mundos” e tinha conhecimento que sua obra não seria acolhida por seus contemporâneos.

The Ten Largest, No. 1, Childhood, Group IV, 1907 / têmpera sobre papel, montado sobre tela, 328 x 240 cm – Cortesia da Fundação Hilma af Klint

Foto: Albin Dahlström / Moderna Museet, Estocolmo, Suécia

Ela frequentou a Academia Real de Belas Artes da Suécia, de 1882 a 1887. Isso foi possível graças a uma lei que permitiu mulheres ingressarem, mas em classes separadas dos homens. Por se graduar com louvor, recebeu como bolsa de estudo um estúdio no prédio da academia.

Suas paisagens e retratos são de excelente qualidade, por isso os vendia e os expunha. Ela também trabalhou como desenhista no Instituto Veterinário de Estocolmo e criou ilustrações para livros infantis, jornais e revistas. Porém, vai abandonar seu trabalho como artista figurativa para pintar “mundos invisíveis”.

Ela é de família protestante, mas incorpora conhecimentos espirituais de sua época como a ordem Rosa Cruz, o Espiritismo, a Teosofia e, mais tarde, a Antroposofia. Hilma é membro fundadora do grupo De Fem (As cinco), que com mais quatro colegas se reúnem, semanalmente, para receber as mensagens. Foram mais de 26 mil páginas manuscritas e datilografadas, além de centenas de registros em imagens sobre telas, pastéis e aquarelas, tidos como “desenhos automáticos”.

The Ten Largest, No. 2, Childhood, Group IV, 1907 / têmpera sobre papel, montado sobre tela, 328 x 240 cm – Cortesia da Fundação Hilma af Klint

Foto: Albin Dahlström / Moderna Museet, Estocolmo, Suécia

A partir de 1906, Hilma abandona os métodos tradicionais e aceita elaborar quadros em um nível “astral”, como escreve Daniel Birnbaum, curador da exposição. Hilma pinta a série “As Dez Maiores”, que são telas de três metros de altura. Tanto o formato quanto este tipo de imagens são bem incomuns para a época e esta série está completa na exposição. 

Ainda em 1906-1908, recebe a missão de pintar telas para um templo, que nunca será construído. No total são 193 obras e na Pinacoteca estão presentes três delas que seriam para o altar. (IMAGENS). Hilma escreve: “Os movimentos foram realizados diretamente através de mim, sem qualquer desenho preliminar e com tanta força a ponto de não saber para onde as formas deveriam me levar. No entanto trabalhava com tamanha velocidade e clareza, sem sentir que devesse alterar qualquer direção ou andamento do pincel”. (MÜLLERWESTERMANN, 2013, p. 38, tradução do autor).  

Em 1908, Hilma  conhece Rudolf Steiner, membro destacado da Sociedade Teosófica e da Antroposofia. Quando Steiner visitou seu estúdio, em 1909, faz um prognóstico de que o seu trabalho não seria entendido durante os próximos 50 anos.

 Em 1942, com 80 anos, Hilma pede em seu testamento que todas as obras não figurativas, no total de 1.200 obras e seus manuscritos deveriam ser guardados e só expostos ao público depois de vinte anos de sua morte. 

Porém, sua obra só vai receber atenção nos anos de 1980. A pesquisa mais abrangente sobre seu trabalho, até o momento, é o da  curadora Iris Müller-Westerman que organiza uma exposição dela no Moderna Museet de Estocolmo, em 2013.

The Ten Largest, No. 3, Youth, Group IV, 1907 / têmpera sobre papel, montado sobre tela, 328 x 240 cm – Cortesia da Fundação Hilma af Klint

Foto: Albin Dahlström / Moderna Museet, Estocolmo, Suécia

Hilma foi instruída por seus mentores a manter as imagens em segredo e não teve discípulos. Um dos mestres enviou esta mensagem a ela: “Não espere que os signos e símbolos que você elaborou com muito esforço sejam compreendidos pelos irmãos que você encontra, mas trabalhe bastante para o futuro. Esta saga vai ser uma grande bênção para seus próximos. Um dia você vai se alegrar por não ter abandonado esta aventura”.

O futuro chegou! Espero que vocês se alegrem e conheçam um pouco desta pintora com seus 130 trabalhos expostos na Pinacoteca de São Paulo. “O futuro é agora”.

Elisabeth Leone – Prof. Dra Comunicação e Semiótica

@elisabethleone