Há pouco tempo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump compartilhou vídeos com cenas de violência praticadas por muçulmanos, originalmente publicados em uma rede social por um grupo de extrema-direita. Além de ser criticado pelo compartilhamento em si, gerando um movimento anti-islamismo, os vídeos ou eram falsos ou não correspondiam exatamente com os fatos descritos na publicação, como data, personagens envolvidos ou locais.

Sem nos aprofundarmos para avaliar as reais intenções do seu gesto, Trump repetiu uma ação feita diariamente por milhões de pessoas em todo o mundo: compartilhar informações nas redes sociais sem investigar sua origem e veracidade, propagando mentiras, promovendo injúrias e, até mesmo, devastando reputações. No caso do presidente norte-americano, a situação criou uma saia justa diplomática com governos de outros países. Consequência proporcional à posição do incauto. Mas o que fazer com as informações mentirosas espalhadas por milhões de anônimos alimentados pela ignorância das consequências que o seu ato pode gerar ou, por que não, pela própria má-fé?

Um estudo do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação da Universidade de São Paulo monitorou 500 páginas digitais de conteúdo político falso ou distorcido. O resultado: 12 milhões de pessoas difundiram as notícias falsas.

Ao mesmo tempo em que dissemina a mentira, o brasileiro também se mostra incomodado com as fake news. Uma pesquisa encomendada pela BBC à GlobeScan, realizada com 16 mil pessoas de 18 países, colocou a população brasileira como a mais preocupada do mundo com a divulgação de conteúdo falso na web (92% dos entrevistados). Na outra ponta da tabela, os alemães, com 47%.

“As fake news não são uma novidade. Boatos ou informações inventadas sempre existiram. A diferença é que agora tudo circula com velocidade muito maior”, conta Maurício Moraes, editor do Truco, projeto de fact-checking (ou checagem de fatos) ligado à Agência Pública, referência em jornalismo investigativo independente.

A internet está no bolso de cada pessoa e os smartphones têm uma arma poderosa de disseminação da informação: o WhatsApp. Uma notícia falsa pode ser enviada rapidamente a milhares de pessoas por conexões criptografadas e é impossível monitorar isso, diz o editor do Truco. “Se todo mundo com WhatsApp repassar uma mensagem a seis pessoas, são necessárias apenas 11 etapas para que o texto chegue a todos os brasileiros”, afirma. “Não acho que as pessoas desejem consumir esse tipo de conteúdo. O que falta, muitas vezes, é reflexão antes de transmitir algo que pode ser falso.”

E as empresas como Facebook e Google falham no controle do que é publicado? “As empresas têm feito um esforço para combater as fake news, mas sempre sem controlar diretamente o que é publicado. Abordagens muito intervencionistas seriam uma censura, o que não é desejável”, revela Moraes. De acordo com a pesquisa da GlobeScan à BBC, o Brasil é o terceiro país onde a população mais se opõe a regulamentações governamentais da internet, com 72%, atrás de Grécia (84%) e Nigéria (82%).

 

 

O que fazem os gigantes da internet para combater as fake news

 

O Google criou um código que os signatários do código de princípios da International Fact-Checking Network (IFCN) podem usar para que checagens apareçam em destaque nas buscas. Essa rede, organizada pelo Instituto Poynter, dos Estados Unidos, reúne sites do planeta todo. Para assinar o código de princípios é necessário passar pela análise de um especialista independente, que vai verificar toda a página e dizer se está de acordo com o que é defendido pela IFCN. Apenas 40 projetos conseguiram passar pelo processo e o Truco está entre eles.

 

O Facebook criou uma ferramenta que permite usuários sinalizarem notícias que acham ser falsas. Membros da IFCN podem ver essa lista e verificar os boatos. Depois disso, toda vez que alguém for compartilhar um conteúdo já verificado aparecerá um aviso na tela, dizendo que sites alertaram para aquela notícia. Essa ferramenta já funciona em outros países, mas ainda não chegou ao Brasil.

 

Fonte: Maurício Moraes, editor do Truco

 

 

Resgate do bom jornalismo

O combate às fake news passa pelo bom jornalismo, destaca o editor do Truco, seja ele feito pelas mídias tradicionais ou independentes. “Hoje a produção de conteúdo de qualidade não está mais restrita aos meios tradicionais”, afirma. Muitas organizações já nascem digitais e vêm se destacando. “Profissionais que tenham o compromisso de produzir um trabalho sério são fundamentais como antídoto para as notícias falsas”.

Projetos de fact-checking como Truco, Lupa e Aos Fatos, também têm papel importante. “É uma maneira de aprimorarmos a democracia, trazendo sempre dados corretos para o debate público”, ressalta Moraes. Fazer fact-checking é trabalhoso. No caso do Truco, há uma metodologia pré-definida para se chegar à conclusão que determinada notícia é falsa ou verdadeira. “Precisamos correr atrás de bases de dados de difícil acesso, analisar estudos acadêmicos ou pedir ajuda de especialistas”, explica.

O fact-checking tem crescido muito rapidamente nos últimos anos. Segundo um censo elaborado pela Universidade Duke, em junho havia 126 projetos ativos em 49 países, aumento de 20% em um ano. “No futuro, será cada vez mais presente”, projeta Moraes.